Perguntas sobre a vocação de cada um, sobre qual o nosso caminho

Já pensei em ser padre, mas gostaria de ter pelo menos uma relação sexual na vida. Será que Deus entenderia se eu o fizesse uma única vez, só para experimentar?

Há cerca de sete séculos, um jovem rapaz, cujo nome era Tomás de Aquino, sentiu-se chamado por Deus para entrar na ordem dos Dominicanos. Contudo, a sua família tinha outros planos para ele. Então contrataram uma prostituta para o seduzir e meteram-na no seu quarto. O rapaz acabou por a mandar embora, aos gritos e com um archote em chamas na mão. Imaginem que este grande Santo que nós conhecemos por São Tomás de Aquino tinha sucumbido ao charme da menina? Tínhamos perdido um dos maiores génios da Igreja.

Da mesma forma que um homem que está a planear casar e ser pai de família, começa a pensar a vida à luz das responsabilidades e expectativas dessa realidade, um rapaz que considera a vocação de sacerdote deve começar pensar em viver de modo a cumprir as responsabilidades e expectativas que Deus lhe pede e não as que o mundo pede.

Para além das consequências espirituais do sexo, tens de considerar também o facto de que o ato em si comporta possibilidade de trazer uma criança ao mundo. Que tipo de pai serias? Um pai espiritual ou um pai biológico? Seja qual for a tua escolha, entrega-te a ela completamente. Além do mais, que tipo de perigos emocionais e afetivos é que esse acto traria à mulher com quem o farias? Estarias a usá-la, como dizes “pela curiosidade de experimentar”. Este não é o caminho para preparar alguém para ser a imagem de Cristo, no sacerdócio.

Como já percebeste, a escolha de uma vida de pureza é exigente. Jesus pediu a todos os seus discípulos que estivessem dispostos a fazer sacrifícios: “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus.” (Lucas 9, 62). Persevera em Cristo. “Persevera no cumprimento do teu dever, consagra-te a ele e envelhece na sua realização. Não admires a obra do pecador, mas põe a tua confiança no Senhor” (Ben Sirá 11, 20-21).

Não cometaos o erro de pensar o celibato de forma negativa. Se te vieres a tornar um padre ou religioso, então o dom da sexualidade não está a ser desperdiçado. Antes pelo contrário, tu estás a oferecer-te a ti mesmo como um sacrifício vivo ao Senhor, pelo bem da Igreja e do Povo de Deus. Entregar a tua virgindade a alguém, só para experimentar, seria como um noivo entregar a sua virgindade a alguém, no dia antes de casar. Faz o mesmo esforço que o noivo, guarda-te.
Se o Senhor te chamou para Si, então tu és Dele! Como disse um dia São Francisco “Não guardais nada do que é vosso para vós mesmos, para que assim assim possais dar-vos totalmente a quem vos recebe”

Como recompensa para uma tão generosa oferta tua, Cristo promete “E Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna.” (Marcos 10, 29-30)

Lembra-te também que a união (em uma só carne) entre o marido e a mulher é um sinal que aponta para uma realidade eterna: No céu todos estaremos unidos a Deus. O celibato dos padres Católicos é um constante sinal, desta realidade, para a humanidade. Existe uma realidade superior aos nossos afazeres e desejos diários, e tu podes ser testemunho disso! Ao evitar as relações sexuais no mundo, estás a ultrapassar todas as barreiras entre a humanidade e Deus, começando a viver já essa união total que a grande maioria só viverá no céu. És um privilegiado, porque Deus te deu essa graça, aproveita, não desperdices!

Será que a crise de vocações acabaria caso os padres pudessem casar?

Esta é uma boa questão, e a resposta pode parecer surpreendente. No início do pontificado do Papa João Paulo II, em 1978 existiam 63, 882 seminaristas. No entanto, no fim do pontificado de João Paulo II, existiam 114,139 seminaristas. É um aumento de 80%! Em África e na Ásia, o número de seminaristas aumentou em 300% e 150%, respectivamente. Na verdade as vocações têm aumentado em todos os continentes. Nos Estados Unidos e na Europa o número de seminaristas diminuiu durante uns anos, mas está outra vez a subir. O que é preocupante é que o número de católicos aumentou para cima de 1 Bilião de pessoas e as vocações atuais continuam a não corresponder a esse aumento da crentes, em algumas áreas.

O número de vocações seria ainda maior se homens casados pudessem ser odenados? Não há forma de provar essa realidade. Por exemplo nas Igrejas Orientais Ortodoxas (que permitem homens casados entre os sacerdotes) não têm números superiores de vocações.
O celibato sacerdotal faz parte da tradição católica desde os primeiros séculos. Embora não seja um assunto dogmático (podendo ser alterado) – é parte alterável da doutrina da Igreja – eu não vejo que seja mudado nos tempos mais próximos. O celibato é uma enorme graça para a Igreja, e não um “fardo difícil de carregar”: Ajuda o padre a servir o povo com um total empenho, por exemplo, o que seria impossível se este tivesse outras obrigações. A Igreja decidiu manter esta doutrina com base nos ensinamentos de Jesus (que foi celibatário) e de São Paulo.

São Paulo recomenda o celibato quando este liberta ou encaminha as pessoas para o serviço dos outros e de Deus (1Cor 17). Da mesma forma Jesus fala sobre os que “renunciaram ao casamento em ordem ao serviço do Reino de Deus”. Aliás é ainda mais explícito quando diz: “Jesus respondeu: “Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado. Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite” (Mt 19, 11-12). O termo Eunuco refere-se aos antigos subditos imperiais que serviam as esposas dos imperadores ou reis. Da mesma forma, os padres abraçam o celibate sonagrado em ordem a tratar da Igreja, esposa de Cristo.

Também não seria uma attitude prudente acabar com o celibato apenas para aumentar o número de padres. Imagina que começavamos a fazer isso em tudo. No exército por exemplo o Primeiro-Ministro diria que como estamos a precisar de mais militares, vamos reduzir o número de flexões que eles fazem, o número de kilómetros que correm e vamos melhorar a alimentação dos soldados. Em poucos meses teríamos um exército relaxado e nada professional. O país precisa de militares de elite, preparados para tudo, assim como a Igreja precisa de padres que queiram sacrificar tudo em ordem ao service da Santa Igreja, sua esposa.

Concluindo, a crise de vocações, se é que existe realmente, não é fruto da abstinência entre o clero, mas fruto de uma perda do sentido da castidade na sociedade e na educação das famílias. Igualmente, a falta de oração é também importante mencionar. Jesus disse-nos claramente para pedirmos trabalhadores para a sua messe! Temos rezado o suficiente pelas vocações? Melhor ainda, tens rezado suficientemente pela tua própria vocação?
Quem sabe Deus não te quer a ti para ajudar a resolver a crise das vocações!

Vou para a Universidade este ano e até já me mentalizei que é lá que vou conhecer uma namorada! Se isso não acontecer, talvez deva ser padre…

Eu não planearia ser padre apenas porque não conheceste alguém especial, no período que tu próprio determinaste. Quando tentamos forçar a nossa vocação a enquadrar-se no nosso esquema temporal, estamos a dizer a Deus: “Tens X meses para me conseguir isto, se não conseguires eu faço sozinho”. Muitas vezes o tempo de Deus não é igual ao nosso tempo, por isso o melhor é rezares para que Deus torne claro em ti se o deves servir no sacerdócio ou não. Quando escolhemos uma vocação, devemos fazê-lo com generosidade, por amor e cheios de coragem. Nunca por frustração ou como Plano B.

Muitas vezes decidimos o que queremos em ordem à felicidade! Isto não é mau. O problema é quando entramos em modo de espera e não somos felizes enquanto não temos aquilo a que nos propusemos. Esta receita, de procurar a felicidade a todo o custo num momento futuro, é massacrante e torna-te infeliz. Porquê? Porque Deus dá-nos o que precisamos e não o que queremos, e se não temos consciência disso podemos passar a vida a querer algo que não convém. Se este tempo em que não namoras parece ser um problema, então precisas de dar a volta a isso, ver a questão de outra forma. Madre Teresa dizia que não existem problemas na vida, existem desafios. Ela também dizia que o mundo vê tudo como um problema…porque não usar a palavra dom?

Porquê dom? Porque a vocação que Deus pensou para ti é onde tu vais encontrar a verdadeira plenitude da felicidade. Tu não queres um casamento que Ele não quer ou que ainda não quer. A Bíblia tem um bom poema “Não agites o amor antes do tempo devido”. Tu podes sentir que o amor anda a fugir de ti, mas confia em Deus, Ele agirá e sabe melhor que ninguém o timing perfeito.
Vive um dia de cada vez. Deus glorifica tudo aquilo que se deixa trabalhar por Ele. Ele quer-te onde estás agora, que abraces a sua vontade e o seu plano à medida que Ele te o vai revelando. Cresce em santidade e lembra-te que a vocação não é o último propósito da tua existência. A santidade é que é o último propósito da vida humana! Deus pode não te chamar a descobrires a tua vocação hoje, mas chama-te de certeza à santidade.

Eu compreendo que esse tempo de solidão é difícil. Eu próprio já passei por momentos de tribulação quanto à escolha da vocação, mas não desanimes, deixa que as Escrituras te trabalhem e te animem:

“Meu filho, se entrares para o serviço de Deus,
prepara a tua alma para a provação.
Endireita o teu coração e sê constante,
não te perturbes no tempo do infortúnio.
Conserva-te unido a Ele e não te separes,
para teres bom êxito no teu momento derradeiro.
Aceita tudo o que te acontecer,
e tem paciência nas vicissitudes da tua humilhação,
porque no fogo se prova o ouro
e os eleitos de Deus, no cadinho da humilhação.
Nas doenças e na pobreza, confia nele.
Confia em Deus e Ele te salvará,
endireita os teus caminhos e espera nele.” (Ben Sirá 2, 1-7)

Como é que eu sei que Deus me chama a ser padre, a casar ou a escolher alguma vocação?

Algumas pessoas sentem um chamamento para a vida religiosa quando estão na escola primária…outros há que apenas o sentem quando já trabalham há mais de dez anos. Cada chamamento de Deus é diferente, mas quer desejes casar-te, ser ordenado ou viver uma vida totalmente dada a Deus, através dos votos religiosos, sabe disto: todas essas formas são formas de amar e servir a Deus. Sabemos se Deus nos chama se aprendermos a ouvi-lo!
Aqui estão algumas coisas que podes fazer para o ouvires:

Marca um período diário de oração e sê perseverante! Para ouvir o que Deus quer de nós, temos de estar atentos, para estarmos atentos temos de rezar e para rezar temos de pedir ao Espírito Santo que nos ensine a fazê-lo. Aprender a rezar requer alguma paciência e muita obediência (inclusive a ti próprio que vais querer desistir mais cedo ou mais tarde). Deixa que Deus te fale no silêncio do coração. Isto requer alguma prática, mas como qualquer boa relação com um amigo, em menos de nada estarás a aprofundar o teu diálogo com Deus. Não te esqueças: O pecado danifica esta relação, portanto trabalha pela santidade, luta contra os teus vícios e hábitos menos saudáveis.
Embora não possamos associar a castidade ao discernimento, esta é uma virtude essencial se esperamos ouvir Deus que nos chama. Quando uma jovem mulher ou um jovem rapaz se comprazem nos pecados da sexualidade, a mente corre o risco de se tornar inerte e dormente à vontade de Deus.

Também é muito útil, encontrares um padre que possa ser teu diretor espiritual. Ele provavelmente já tinha uma boa relação com Deus antes de tu nasceres, por isso podes beneficiar com a sua sabedoria e santidade. Ajuda também se começares a falar sobre a tua vocação com pessoas que consideras santas ou que apenas admiras. O essencial é fazeres-te rodear de um ambiente que te eleve.
O Papa João Paulo II dizia: “Em primeiro lugar digo isto aos jovens: Nunca penses que estás sozinho a discernir o teu futuro! E segundo: Quando estás a decidir o teu futuro, não o decidas sem ajuda!”; “Abre as tuas maiores aspirações ao amor de Cristo, que espera por tu na Eucaristia. Receberás a resposta para todas as tuas preocupações e verás que a alegria e consistência da tua vida passam por fazer aquilo que Ele te pede”; “A procura da vontade de Deus é uma aventura fascinante. Todas as vocações em todos os caminhos que Deus nos chama, cumprem a plenitude da felicidade porque levam a uma vida partilhada com Deus”

Se estás mesmo a considerar o sacerdócio, será benéfico passar algum tempo num retiro próprio para o discernimento. Outro método pode ser a reflexão da tua própria vida: Olha para as portas que o Senhor tem aberto e fechado na tua vida, tenta perceber que talentos Ele te tem dado e quais são os desejos mais profundos do teu coração. Geralmente complicamos muito o processo de discernimento e perdemos a paz. Seja qual for a vocação para a qual Ele te chamar, esse será o lugar onde terás alegria. Todas as vocações implicam uma certa dose de sofrimento, não é tudo um mar de rosas, mas todas são também formas de seres santo!
Alguns rapazes pensam “As miúdas são lindas, por isso Deus não quer que eu seja padre!” Este não é um discernimento sincero. Conheço um bom padre que deu este conselho a um grupo de jovens: “Se vocês não têm desejo de ser pai nem marido, não penso que possam ser padres!” Por outras palavras, para seres um bom padre, deves ter em conta que irás servir de pai espiritual de muitos e serás esposo da própria Igreja. Terás de te dar totalmente a ela.

O ser padre não quer dizer que tenhas de aniquilar os teus desejos. Apenas os satisfazes de outras maneiras. Em vez de te dares totalmente a uma mulher, de modo a teres filhos , dás-te totalmente à Igreja de modo a levares todos os homens à vida eterna.
Sê paciente durante este tempo de discernimento. Geralmente Deus não quer que saibamos quais os planos Dele para nós, antes do tempo. Pode parecer estranho, mas nós crescemos muito nestes momentos em que Ele parece silencioso. A sua vontade é a nossa santificação, e sermos fiéis neste tempo de provação pode ser exatamente aquilo que Ele quer para ti agora. Entretanto, recomendo que rezes todos os dias pelas vocações, que durante o teu tempo de oração estejas aberto à vontade do Espírito Santo, que fala realmente contigo.

Que Nossa Senhora te possa guiar para o seu Filho, dando-te a coragem de responderes com muita generosidade e carinho. Disse João Paulo II: “O meu desejo mais profundo, é que os jovens do mundo se aproximem de Maria. Ela é a portadora da verdadeira juventude e beleza que não desvanecem. Que os jovens possam aumentar a sua confiança nela e entregar-lhe a vida que se abre diante deles”.
Por último, recomendo que vejas o vídeo no Youtube “Fishers Of Man”, para teres uma ideia da dignidade e do amor que é a vida sacerdotal.

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