Tenho muito que fazer, posso deixar a conversão para amanhã?

Em todos oRúben Rodriguess tempos, mas com especial instância na Quaresma, a Igreja – como mão que mantém aberta esta porta (…) para [o povo de Deus] não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo (cf. Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2015) – convida-nos, como Mãe, a examinar com mais atenção a nossa conversão pessoal ao Evangelho. Somos, sobretudo, exortados a que esta conversão não fique a repousar no plano intelectual e se concretize, todos os dias cada vez mais, nas nossas vidas.

Mas, pela atenção que requer, não seria, porventura, mais fácil preocuparmo-nos com a nossa conversão noutra altura mais conveniente, em que não tivéssemos que ter mil e uma brincadeiras, enquanto crianças, em que não tivéssemos que estudar ao mesmo tempo que experimentar mil e uma novas sensações, enquanto jovens, em que não tivéssemos que encontrar um emprego e trabalhar para comprar mil e uma coisas, enquanto adultos, e depois sim, se sobrasse tempo, pensar “nessas coisas”?

Colocar esta questão é um sinal bem claro da confusão que mina a nossa sociedade, em que somos impelidos a projetar a nossa vida na estrita função dos seus meios e forçados a esquecer, por completo, a sua verdadeira finalidade. Este paradigma transviado leva-nos a procurar, por exemplo, o sentido de estudar em tirar um curso, o sentido de tirar um curso em encontrar emprego, o sentido de trabalhar em adquirir coisas, e assim por diante até não conseguirmos adiar mais, e não encontrarmos, com este olhar, outro sentido para a vida que não seja a morte. É aqui que Deus se revela, não como a solução inventada pelo Homem para sossegar as suas dúvidas existenciais, mas como a fonte de sentido para a vida e para o Universo, que interroga o Homem, ao mesmo tempo que lhe oferece o Amor, que é a resposta certa para as mesmas perguntas que lhe coloca, já que nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado (cf. Ib.).

A questão também não faz sentido, porque o Evangelho não nos sugere que vivamos fora do Mundo. Pelo contrário, pede-nos insistentemente que o façamos, que sejamos uma voz do que clama no deserto (cf. Jo 1, 23) com a paciência de quem tem um coração fortalecido (cf. Tg 5, 8) e prontos a ajudar os outros a descobrir, com mais obras do que palavras, quem é afinal Aquele que nos fortalece (cf. Fil 4, 13). A conversão a Cristo não é, pois, inconciliável com a vida que escolhemos, o que acontece é que Ele apenas não consegue operar num coração duro, que não seja capaz de se arrepender.

Só poderíamos aceitar esta questão, se a conversão ao Evangelho fosse uma moda, um life-style, cuja adesão se baseasse na imitação de uns modelos que víamos passar, a cada estação, nas passerelles, e cujos inconvenientes fossem um fator a considerar no desfile da próxima estação. Mas não! Nós, os jovens de idade e/ou de espírito, somos os responsáveis por mostrar a todas as Nações (cf. Mt 28, 19) que a Palavra de Deus, depois de percorrer milénios, está sempre pronta, hoje e sempre, para se tornar viva em cada uma das nossas vidas, como se fez viva no ventre de Maria Santíssima, e só precisa de um “Sim!” generoso para afastar os espinhos com que a contestamos, e frutificar abundantemente na boa terra (cf. Lc 8, 8) preparada por Deus no coração de cada homem e de cada mulher.

Apesar de já termos visto claramente que a questão está absurdamente mal colocada, não a vamos deixar sem resposta. A conversão não é um caminho para os rejeitados ou para as elites, nem para os velhos ou para os novos, mas para todos quantos quiserem buscar o verdadeiro fim da sua existência, e para quê começar a procurar amanhã se posso encontrá-Lo agora? Afinal de contas, Este é o tempo favorável, este é o dia da Salvação (cf. 2 Cor 6, 2).
Santa Quaresma!

Rúben Rodrigues (estudante medicina dentária, UL)

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